Guilherme Ribeiro

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Córnea mansa

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Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama
Eu tô voltando…

Aqui estou, de novo e de volta.

“Estou”, né?

Entre aspas porque não voltei inteiro. Deixei no Hospital São Paulo minha córnea, minha segunda córnea, na verdade.

Estou pró já nesse lance de transplante, e após a primeira tentativa em 23/04, mal-sucedida por conta da alergia e da até então inevitável rejeição, acho que agora vai!

A visão já está clareando, mas como antes, cansa rápido. A sensibilidade à luz já está diminuindo, mas ainda não dispenso os óculos escuros, mesmo dentro de casa…

Essa segunda cirurgia, realizada em 14/07 teve um quê de espetáculo. Muito engraçado toda a equipe em volta de mim no pós-operatório, ouvindo a professora e chefe do ambulatório fazendo observações, comparações, e recomendações; e ao mesmo tempo mantendo ávida atenção ao monitor preso à parede que exibia em tempo real as imagens que ela via através daquele aparelho que os oftalmologistas utilizam o tempo todo e que eu nunca soube o nome…

É engraçado pensar sobre os transplantes. A grosso modo, a inviolabilidade do meu corpo, a harmonia do meu universo, a minha corrente enérgica enquanto organismo vivo e pulsante e todos esses papos-cabeça meio hipponga – que fazem sentido – foram quebradas!

As pessoas me perguntam como é ter o órgão de outra pessoa instalado em você. Querem que eu diga qual é a sensação de saber que aquele pedacinho de matéria que agora tanto me é necessário já pertenceu a outro alguém, e que esse alguém obviamente já está morto…

Eu vos digo. A complexidade desses fatos, fatores e de toda essa questão psico-filosófica se resume numa única e exclusiva palavra:

NADA!

Hahahahahahah, verdade! Nada muda!

Além dos meus anticorpos e suas eternas brigas com os alérgenos e etc. todo o resto do meu corpo não faz a menor idéia de que aquilo – a córnea – não é meu,  e meu psicológico sabe bem, mas nem liga.

Não pesquisei sobre este assunto pra saber como as outras pessoas que foram submetidas à transplantes de córnea ou mesmo de outros órgãos se sentem – nem pretendo pesquisar -, mas sei que o que muda de pessoa pra pessoa está basicamente atrelado a um dos inúmeros fatores que tornam cada ser humano único e inimitável: sua visão sobre e sua relação com o mundo e tudo que nele há. O que ela já sentia/pensava é o que deve determinar como ela se sentirá/pensará sobre essa situação, igual a tudo o que acontece com todo e qualquer ser humano. É… É basicamente uma questão filosófica…

Ah, cansei desse papo cabeça sem pé nem cabeça.

O que importa mesmo é a fé que que boto nessa córnea e na vontade de que minha alergia goste dela – ou ao menos aceite-a, mesmo sem gostar – desta vez; e que eu continuo na onda da Simone:

Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando

Dá uma geral, faz um bom defumador
Enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, tá calor
Vai pegando uma cor
Que eu tô voltando

Faz um cabelo bonito pra eu notar
Que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar
Pode se preparar porque eu tô voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som
Estréia uma camisola
Eu tô voltando

Dá folga pra empregada
Manda a criançada pra casa da avó
Que eu to voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero lá, lá, lá, ia, porque eu to voltando!

[Música de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós]

Written by Guilherme Ribeiro

22/07/2009 at 13:32

Publicado em assuntos internos

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