Guilherme Ribeiro

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Plantão médico

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Saúde  de qualidade? Reportagem avalia o atendimento médico emergencial dos hospitais Antonio Giglio [municipal] e Regional [estadual] em Osasco.

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Ao entrar pela porta da frente, certamente o cidadão desavisado será barrado e orientado a dirigir-se à entrada lateral – durante o dia – ou à entrada para casos emergenciais. A porta localizada na fachada do Hospital Dr. Vivaldo Martins Simões – conhecido como Hospital Regional de Osasco – é destinada apenas a funcionários. No entanto, ao alegar interesse em tratar de assuntos com a administração, a passagem é facilmente liberada. Aguardando autorização para adentrar os corredores do hospital é possível entreter-se com parte do acervo itinerante de obras de arte do UNIFIEO. O livro de visitas da exposição divide espaço com folhetos diversos que trazem desde mensagens religiosas a delivery de pizzas e até yakissoba. Ao lado, um mural traz orientações sobre prevenção e diagnóstico de doenças, junto de corações vermelhos, mensagens e poemas feitos por funcionários em homenagem ao dia das mães.

As duas dezenas de obras de arte trazem temas e estilos variados, abstratas, realistas, monocromáticas, multicoloridas… Todas ali, juntas, ilustram os corredores que abrigam a administração do hospital localizado no bairro de Presidente Altino, destino emergencial de todas as ocorrências principalmente de traumatologia – área em que é referência – de 16 municípios da Grande SP.

O sábado chuvoso pouco anima os funcionários ainda em horário de almoço a caminhar no entorno do hospital. Um grupo de copeiras e cozinheiras devidamente uniformizadas aglomera-se num banco sob a marquise. Selma [alagoana], Lucinalva [pernambucana], Senira [baiana] e Adriana [paulista], cada uma com seu sotaque, falam sobre as atividades do lar, a família e a vida. “A comida daqui é boa?” E respondem – quase em coro: “Ah, a gente é suspeita pra falar…” A cozinha serve todos os dias seis diferentes refeições, com cardápio variado para pacientes em dieta. O cozinheiro geral João da Costa Sobreira, contabiliza – sem certezas – que mais de mil refeições saem da cozinha diariamente.

O acesso a jornalistas é vedado. Roubo de material hospitalar, medicamentos e até bebês servem de justificativa. “Agora, até o pessoal religioso que faz visitas deve ser cadastrado” – informa um dos administradores interinos do hospital.

Mesmo diante de tão rígidas normas de segurança, é possível caminhar pelo labirinto de corredores de acesso restrito por quase uma hora, até ser gentilmente convidado a retirar-se. Antes de desistir da pauta, o sábado chuvoso sugere uma opção: acessar os corredores como paciente do hospital. Resta apenas aguardar a troca de turnos para não ser reconhecido pelos mesmos seguranças.

Plano B – Sentindo na pele.

A chuva continua a cair e o relógio da recepção do Hospital Antonio Giglio, no centro de Osasco, marca dezessete horas e quinze minutos. Um médico fuma despreocupado sob o aviso da nova lei anti-fumo.

Para ser atendido basta identificar-se e aguardar. Quando se forma um grupo razoável de pessoas que buscam atendimento de uma mesma especialidade, os pacientes são encaminhados ao elevador, e posteriormente à sala de espera – neste caso, a de ortopedia. Muitos pacientes espremem-se em poucas cadeiras, e dona Laura, senhora de idade e mãe, ocupa o miolo da sala com a cadeira de rodas – os filhos que a acompanham suspeitam que tenha fraturado a bacia.

O atendimento é rápido, e o paciente logo é encaminhado ao setor de radiografias. Mais gente, menos cadeiras. Dona Laura novamente ocupa o meio da sala. Outras mães expressam caras tristes com suas crianças de colo, que choram aos berros. Toques de celular com suas estridentes campainhas competem com a choradeira. Uma funcionária dirige-se ao meio da sala, ao lado de dona Laura:

”–Vou pedir para que vocês [os pacientes] tenham um pouquinho de paciência. Um paciente infeccionado teve que tirar raio-x e por precaução a sala está sendo higienializada (sic)”

Uma senhora de dimensões fartas narra à irmã – pelo celular – o ocorrido com a sala de exames. Ela também caçoa do sobrinho – filho da mesma irmã –, fazendo chacota do galo de dimensões também fartas que o garoto exibe na testa.

Vários pacientes são chamados à antessala do local onde são realizadas as radiografias. Os pacientes, em pé, reordenam-se sem qualquer ordem. A senhora farta agora espreme cravos do sobrinho.

Matilde, a técnica em radiologia conta que o tal paciente infeccionado era portador da Síndrome de Furnier. Doença rara, infectocontagiosa. É o segundo caso que vê em dez anos de carreira. Muitos pacientes hesitariam em deitar-se na máquina se soubessem da gravidade da doença.

Radiografia feita, basta aguardar a aprovação do técnico que as confere sem qualquer pressa, cantarolando, sentado confortavelmente sobre um armário.

Ao retornar à sala de espera da ortopedia, mais uma vez a ordem dos pacientes é esquecida. Raimundo, mêcanico, bufa para todos os lados aguardando atendimento. O sangue que escorria em sua perna já está seco, fora vítima de um atropelamento por motocicleta. O motorista não prestou socorro. Raimundo dera entrada às 15h, seu relógio marcava 18h35.

Ao analisar as radiografias do repórter, nada irregular. Uma injeção de Voltaren e outros analgésicos são receitados.

O plano B enfim se mostra eficiente. Após deixar o consultório é possível caminhar por horas pelos corredores do hospital, visitando a UTI; os leitos de internação – inclusive pediátrica –; a saída de serviço, que dá acesso aos cilindros de oxigênio que alimentam o hospital; e até as salas de conforto médico – para o descanso dos plantonistas. Apenas os centros cirúrgicos e o necrotério estavam trancados.

De volta ao Hospital Regional, na estrada de emergência o ambiente mostra-se nada acolhedor. A iluminação âmbar, refletida nas paredes manchadas reforça o ar de angústia, típico desses hospitais. Um quadro de recados exibe fotos de má qualidade de pessoas desaparecidas. Muitos números de telefone para contato e nenhuma ligação.

Diferente das cerca de duas horas e meia do Antônio Giglio, no Hospital Regional é possível, em menos de trinta minutos: responder à todas as questões e assinar a extensa ficha cadastral, ser encaminhado ao médico de plantão, ser examinado a olho nu e ser liberado após diagnóstico que não transpassa muita confiança. Mais Voltaren e mais analgésicos receitados devem aplacar a solidão, na chuvosa véspera do dia das mães.

Written by Guilherme Ribeiro

22/05/2010 às 01:41

2 Respostas

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  1. Dizem que desgraça pouca é bobagem – e que coisas ruins nunca vêm sozinhas. Posso afirmar que ambas as afirmações são verdadeiras!

    odete maria soares parreiras

    08/03/2013 at 10:48

  2. Atendimento médico emergencial dos hospitais Antonio Giglio [municipal] e Regional [estadual] em Osasco.
    quero agradece-los aos médicos que socorreram meu irmão á semana passada que ele continua… hospitalizado no 1 andar está em tratamento com anemia recebendo sangue,chegou com hemorragia , hematomas nas costas de pancadas o nome dele, ANTONIO SOARES PARREIRAS .Somente uma avaliação médica poderá diagnosticar…peço pelo amor de DEUS A EQUIPE DO HOSPITAL QUE DEUS ILUMINE SEMPRE POR SALVA-LO A VIDA DO MEU IRMAÕ QUE AMO MUITO.
    GRATA ODETE PARREIRAS,AGRADEÇO

    Odete Parreiras

    08/03/2013 at 12:35


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