Guilherme Ribeiro

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Uma noite manauara

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A segunda sexta-feira em Manaus, como da primeira, foi de happy hour no Eldorado – essa sexta, aliás, teve motivo especial para a comemoração: além de mim, que completou 31 anos na quarta-feira, o dia seguinte era aniversário do colega de SP que por acaso encontrei trabalhando no mesmo projeto.

O Eldorado merece um parágrafo à parte. Na zona centro-sul da cidade, é basicamente um apanhado de bares, lado a lado e frente a frente, todos em torno de um largo com praça e ruas de sentidos diferentes  por onde, a altas horas, manauaras de maior poder aquisitivo, digamos, começam a desfilar seus carros quase nunca vistos no dia a dia local, de valor proibitivo para a maioria dos frequentadores – qualquer semelhança com Vilas Madalenas e afins é mera coincidência?

A coordenadora do projeto em que estou trabalhando já havia nos prevenido dessa prática. Nas palavras dela,  no típico sotaque amazonense (uma mescla entre o carioca e o nordestino, “ixe, home, é cada carrão que passa! Mas só passa, também, por que se parar, desce cada cabra feio que só a peste!”.

O bar, de novo, foi o Mika’s Chopp que, também segundo ela, é onde tem a melhor música ao vivo – e o melhor atendimento. Lá, assim como quase em todos os bares à volta, a fachada é dividida entre os letreiros e um grande retângulo branco, usado como telão para os projetores que exibem futebol em dias de clássico e eventos do UFC – muito popular lá graças ao fato de ser o berço de José Aldo. Uma engenhoca articulada, cuidadosamente posicionada, sustenta e protege da chuva o projetor. Considerando o óbvio risco à segurança do aparelho, este precisa ser colocado e retirado todas as vezes, tarefa essa executada por uma escada consideravelmente alta, posicionada exata e literalmente no meio da rua. Sim, me esqueci desse detalhe: as mesas e cadeiras não ficam dentro do bar (até existem algumas, mas poucas mesmo), ficam na praça circundada pelas ruas onde os feios desfilam caros carros. Cada bar mantem as suas, sob as árvores mesmo, metricamente separadas por muretas que sustentam alguma jardinagem. Cabe informar que apesar de conhecido por apenas por “Eldorado” (o nome não-oficial do bairro), o nome preciso do local é Praça do Caranguejo.

Bebemos e comemos. Tudo bem até as moças decidirem que estavam no humor de dançar – mesmo sabendo que acordaríamos cedo para o dia no flutuante.

Entre as opções ofertadas, incluindo algumas um tanto quanto caras, resolveram que iríamos terminar a noite no [Clube] Municipal, no bairro Da Paz. Um dos motivos para a escolha veio abaixo logo à porta: mulheres pagam para entrar, sim (metade dos vinte reais cobrados dos homens, ok, mas não era gratuito como pensavam), e paga-se antes mesmo de entrar com o carro – cada ingressante paga a taxa de entrada ali, na portaria, causando certo congestionamento local.

Lá dentro, um grande salão coberto sem paredes era de calor ameno. À meia-luz, os refletores projetavam figuras abstratas (ou incompreensíveis) e oscilavam entre o azul, o vermelho e o verde, varrendo o salão em movimentos constantes que aos poucos se revelavam precisamente repetidos.

O clima de brega era latente, quase tangível -mas não incomoda, nem choca. Pelo contrário, é parte da experiência de se envolver com a cultura local e com os locais, em si: pessoas incríveis, de uma alegria insistente, ímpar. De receptividade  constante, te fazem sentir em casa, mesmo estando tão longe dela.

Descobri nessa noite movimentos que nem sabia que meu quadril era capaz de execução.  Alguma coisa ali te contagia, não sei (e não estou falando do álcool que, como a alegria local, também era constante. Dancei. Dancei com a colega de projeto, com a coordenadora do projeto – e até com a filha dela, moça graciosa, de sorriso bonito e simpaticíssima, apesar de ter dito que “até danço, mas preciso ser levada – e bem levada!” – acho que meu ‘dois pra lá, dois pra cá’ não convenceu. Em certa hora perguntou-me, não lembro exatamente com que palavras – mas claramente lembro do tom irônico -, se ficaria só nesse básico mesmo…

No dia seguinte fui notificado (amnésia alcoólica, velha companheira) que um momento de pouco desequilíbrio e muita ousadia dançante rendeu até algumas garrafas quebradas.

Uma noite boa.

 

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Written by Guilherme Ribeiro

05/08/2017 às 03:13

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  1. […] manhã foi de ressaca braba, bravamente enfrentada no café da manhã – brincando de alquimia com os sucos de […]


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